Creio que foi em “A Peste”, de Camus, que li que a doença é uma espécie de prisão. Pode ser que esteja enganado em relação à referência, mas concordo plenamente com essa afirmação. Aliás, creio que qualquer um de nós que já tenha passado pela experiência do adoecimento, principalmente aquela derivada de um transtorno psíquico, sabe do que estou falando.
A experiência do adoecimento me remete à imagem de uma cela, uma solitária, onde damos voltas e voltas na esperança de encontrar uma saída, que na verdade sabemos impossível. Um círculo vicioso que envolve nosso corpo, nossa mente, todo o nosso ser. Essa imagem angustiante, quase insuportável, é, sem dúvida, uma hipérbole narrativa que uso propositalmente aqui para – parodiando Shakespeare em “Hamlet” – “explodir a consciência” do leitor. Entretanto, se prestarmos bastante atenção em nossas existências hipermodernas, em nosso estilo de vida, perceberemos que talvez já estejamos vivendo nessa prisão, nessa cela, ainda sem nos darmos conta.
A dinâmica contemporânea, que nos cobra, por uma lado, produtividade, performance a toda prova e, por outro, promove uma alienação compulsiva e consumista, que nos faz escravos da web e das redes sociais, encarcera nosso espírito e empequenece nossa alma de uma maneira insidiosa e perversa, vendendo-nos a ideia de que viver assim é a coisa mais normal e inocente do universo. E assim vamos, ingenuamente e até alegremente, deixando-nos encarcerar e empequencer, até que, como que de repente, nos vemos surpreendentemente tristes, frustrados, angustiados, doentes. Como nos conta Dante Alighieri na “Divina Comédia”, vamos andando e vivendo como sonâmbulos, e então, quando acordamos, nos encontramos em uma verdadeira selva escura, cercados de animais ferozes e um abismo. Enfim, a dinâmica patológica, tal como a que vivemos na contemporaneidade, parece ter início como um sonho bom, repleto de estímulos e coisas divertidas, mas que, depois de um certo tempo, transmuta-se em pesadelo desesperador, angustiante.
Se a imagem mais eloquente da doença é a prisão, não creio que estaremos nos equivocando quando então relacionamos a saúde à imagem da liberdade. A saúde nos remete instintivamente ao campo aberto, às trilhas, às viagens, à aventura.
Inevitável lembrar aqui do engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, velho, falido e fracassado fazendeiro de “un lugar que no me quiero acordar”, que, de tanto ler livros de cavalaria, ficou “louco” e resolveu sair pelo mundo como cavaleiro andante, consertando desconcertos, fazendo justiça, socorrendo os desvalidos. Para aqueles que olham de fora, ou melhor, de dentro das prisões da “normalidade”, Dom Quixote não passa de um doente. Entretanto, para quem se permite aproximar, acompanhar e, principalmente, procura entender, Dom Quixote é a própria imagem da saúde existencial – um pouco hiperbólica, sem dúvida, porém, de outra maneira, como Cervantes iria conseguir “explodir a consciência” do leitor? Dom Quixote – assim como, aliás, todos os grandes, trágicos e disparatados heróis da literatura universal – ensina que a única maneira de nos protegermos da loucura absurda que nos cerca e nos prende é escolhermos corajosamente ser um pouco loucos. Sim, é escolher essa loucura sã que nos liberta, ao escancarar os portões da normalidade e as grades da alienação.
Tendo como meta a saúde existencial, prescrevo a loucura de deixarmos de lado – na justa medida – os manuais técnicos, os livros de autoajuda, os gurus e influencers das redes sociais e enlouquecermos um pouco lendo, vendo e escutando os clássicos, dando-nos assim a oportunidade de escapar das prisões e limitações que nos estão sendo impostas, ousando ser livres, ousando ser saudáveis, ainda que tenhamos de pagar um preço por isso.






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