Em “Recordação da Casa Morta”, Fiódor Dostoiévski faz um relato impressionante dos quatro anos em que esteve preso num cárcere de trabalhos forçados na Sibéria por motivos políticos. Utilizando-se de um recurso narrativo supostamente ficcional, compreensível em função da necessidade de não criar problemas com a censura czarista após sua libertação, o grande escritor russo compôs, nesta que foi considerada uma de suas obras mais importantes, um verdadeiro diário dos horrores que a reclusão, a tortura e a arbitrariedade humana são capazes de produzir. E nesse tratado sobre os limites da dor e do desespero, não deixa de chamar a atenção o fato de que, para Dostoiévski, dentre todas as situações e experiências terríveis pelas quais passou, a pior de todas tenha sido a impossibilidade de ficar sozinho. Vigiado ininterruptamente, obrigado a compartilhar espaços exíguos com centenas de reclusos, acossado por gritos, sussurros, brigas, o escritor relata que o não poder desfrutar de um minuto sequer de sossego, de intimidade consigo mesmo, quase o levou à completa loucura. Era como se estivesse perdendo sua identidade; como se a consciência de si mesmo estivesse se desintegrando.
Para além de todas as descrições dantescas e bizarras que se pode encontrar nesse desconcertante livro, esta em especial me deixou particularmente intrigado e reflexivo. Como é possível que para um ser humano numa tal situação de privação e tortura a necessidade de estar só possa despontar como algo tão essencial, levando em consideração a realidade atual, em que, voluntária e alegremente, abrimos mão da experiência da solidão de uma forma tão radical? Dostoiévski, num contexto de total perda de liberdade, reconhece a impossibilidade da solidão como uma das experiências mais deletérias e desumanizadoras que um ser humano pode experimentar. Nós, num contexto de aparente liberdade total, execramos a solidão e consentimos livremente em que não nos permitam estar a sós conosco mesmos. Que tipo de inversão esquisita será esta?
Como nos ensina Homero na “Odisseia”, a melhor de todas as coisas é a justa medida. E isso vale, claro, também para a solidão. Os dados estatísticos nacionais e internacionais, assim como a promoção de políticas públicas de combate à solidão, como se vê em alguns países europeus, mostram indiscutivelmente o caráter patológico dessa anomalia que já se apresenta como um novo tipo de epidemia. A solidão, como produto do individualismo consumista e hedonista, característico dessa nossa era hipercapitalista, é algo claramente desumanizador e sombrio. Entretanto, será que a histeria sócio-midiática que se deflagrou nos últimos tempos (a escancarada exposição da intimidade nas redes) pode ser considerada o melhor remédio? No meu ponto de vista, antes do que recurso terapêutico, essa verdadeira guerra à solidão a que assistimos hoje me parece mais um sintoma colateral. Combater a solidão procurando eliminar qualquer possibilidade de estar só me parece uma estratégia tão burra quanto querer combater uma bactéria nociva que atua em nosso organismo pela eliminação de toda e qualquer bactéria que em nós possa existir.
A solidão como produto do ensimesmamento narcísico e da cobrança performática autoimposta, como tão bem descreveu Byung Chul-Han em “A Sociedade do Cansaço”, é, sem dúvida, uma condição patológica e desumanizadora. Entretanto, paradoxalmente, só pela experiência da solidão é que poderemos nos libertar da socialização tóxica imposta pelas redes digitais. Entre o abismo da solidão depressiva e o da sociabilidade histérica é que se encontra a solidão saudável; aquela que permite o encontro com o nosso verdadeiro eu e que nos prepara para uma vida de relação mais harmoniosa. Nesse sentido, não devemos temer a solidão, muito pelo contrário. Devemos aprender a lidar com ela e assim extrair dela o que de melhor tem a nos oferecer. Sem a experiência da solidão, como aprendeu de forma dolorosa Dostoiévski, corremos o risco de nos despersonalizar radicalmente e de nos dissolvermos espiritualmente. Uma solidão bem cultivada, na justa medida, é fundamental para nossa saúde psíquica e social. Uma pessoa que aprendeu a ser só na justa medida é alguém cuja presença no mundo é muito mais benéfica do que aquele que se lança nele como um socializador compulsivo.
É urgente que aprendamos a cultivar a solidão saudável para nos livrarmos da solidão patológica, efeito colateral de uma sociedade que dissemina o pavor de ficarmos sós conosco mesmos. A solidão saudável é o antídoto contra a alienação, a superficialidade e a despersonalização, vetores potentes da solidão patológica e da depressão.






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