Falar de saúde existencial é ir além do mental, do cerebral, do psicológico. Falar de saúde existencial significa mergulhar nas profundezas mais radicais do ser humano e pressupõe entendê-lo como um ente não só psíquico, mas também físico e espiritual, o que exige, portanto, superar a perspectiva cartesiana que nos foi imposta pela Modernidade; perspectiva esta que nos faz entender a nós mesmos mais como máquinas do que como seres vivos – incapazes de sermos decifrados completamente e rigorosamente programados.
Para entender o que é saúde existencial precisamos investigar e resgatar aquilo que é próprio do humano e, por isso, ir além de uma perspectiva científica que, sem dúvida, compreende e fornece conhecimentos cada vez mais amplos e profundos sobre nosso “funcionamento”, mas que é e será sempre de insuficiente para explicar nossa “existência”. Para tentar compreender por que existimos e a que será que se destina essa existência – conhecimento essencial (ainda que sempre incompleto) sem o qual nunca seremos saudáveis existencialmente – necessitamos, impreterivelmente, daquela outra fonte de saber que a Modernidade sistematicamente desvalorizou e marginalizou: a arte, o sonho, o mito.
O cientificismo que se desenvolveu a partir do século XIX, fundamentado no paradigma cartesiano e iluminista, elaborou uma interpretação bastante simplista, porém extremamente bem aceita e reproduzida até os dias de hoje sobre a arte, o sonho e o mito, apesar de toda contribuição crítica e questionadora de Freud, Jung e outros importantes pensadores da contemporaneidade. De acordo com essa interpretação, as imagens, símbolos e narrativas mitológicas, oníricas, artísticas, não passam de tentativas ingênuas e toscas de explicar os fenômenos naturais e existenciais, anteriores ao desenvolvimento do pensamento lógico-racional e à consolidação da ciência moderna. Neste sentido, tais discursos ou mitos seriam formas ultrapassadas de explicação e conhecimento da realidade. E ainda, de acordo com essa visão “racionalista”, na medida em que as “luzes” da razão, da ciência e da tecnologia predominassem, as “trevas” e as “visões distorcidas e obscuras” do mito, do sonho e da magia cairiam em desuso, fazendo-nos avançar pelo caminho do progresso, da justiça e da felicidade. Passado um pouco mais de um século da predominância desta crença, parece evidente o seu fiasco – ainda que não faltem todavia os profetas entusiastas da santíssima trindade razão, ciência e tecnologia.
Hoje nos encontramos reféns de uma bipolaridade estúpida, pois ou somos adeptos da razão, da ciência e da crença no poder redentor da tecnologia ou então caímos nas garras do fanatismo religioso, fundamentalista e delirante. Neste cenário esquizofrênico torna-se impossível pensar no resgate da nossa saúde existencial, base para um autêntico equilíbrio psíquico, físico e social. O primeiro passo a ser dado, portanto, no caminho da nossa cura passa, necessariamente, pela superação dos preconceitos cartesianos e cientificistas. Necessitamos revisitar os sonhos, imagens e mitos que nossos antepassados nos legaram e encará-los não como historinhas ingênuas, toscas e ultrapassadas sobre uma realidade que não sabíamos explicar, mas como verdadeiras fontes não apenas de conhecimento mas de saúde. Munidos de uma perspectiva coerente, humilde e crítica da razão e da ciência, devemos olhar para as narrativas míticas não como um conjunto curioso e bizarro de delírios deletérios, mas como meios de conexão com a nossa essência e como caminho de reencontro com nosso destino existencial.






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