Saúde Existencial: uma proposta para nossos tempos desconcertados
“Nosso tempo está desconcertado. Maldita sina que me fez nascer um dia para consertá-lo”. É com essa frase que Hamlet, príncipe da Dinamarca, encerra o primeiro ato de uma das mais conhecidas peças de Shakespeare, que, a meu ver é uma das obras mais espetaculares não só da dramaturgia, mas da literatura de todos os tempos.
Mais do que “gostar” posso dizer que esta frase me “persegue”, certamente por seu caráter extremamente atual e profético. Seria o tempo de Hamlet, de Shakespeare, ou o nosso que está dramaticamente desconcertado?
Sabemos que a passagem do século XVI para o XVII na Europa, época em que Shakespeare escreveu Hamlet, foi um tempo particularmente conturbado, cheio de crises, guerras, turbulências. Entretanto, como compará-lo com o tempo atual, quando as guerras podem nos levar a uma hecatombe nuclear (coisa inimaginável no tempo de Shakespeare) e a crise climática, provocada ou agravada pelo produtivismo e consumismo desenfreado, pode comprometer seriamente nossa existência no planeta? Se para Hamlet o tempo estava fora dos eixos (out of joint, no original), creio que não seria exagero dizer que o nosso está completamente destrambelhado.
A segunda parte da frase, entretanto, coloca um problema de outra ordem. No contexto de Hamlet, o desconcerto do tempo diz respeito a uma infame injustiça que ele e somente ele, príncipe, podia resolver: vingar ou não o assassinato do pai e restabelecer a justiça em seu reino (daí deriva o famoso dilema “ser ou não ser: eis a questão”). No contexto em que me coloco a referida frase, a resolução do problema – o concertar aquilo que está desconcertado – vai muito além da minha ou da sina de que qualquer ser humano neste planeta possa ter. Ninguém em são juízo pode acreditar que concertar o desconcerto dos nossos tempos seja a sina de alguém em particular. Entretanto, uma razoável atitude antiególatra não pode nem deve justificar uma outra radicalmente oposta e igualmente deletéria: a pusilânime omissão. De minha parte, estou convencido de que se não é minha sina concertar nossos tempos desconcertados, sinto-me impulsionado a pelo menos fazer todo o possível para dar a minha contribuição para essa tarefa, talvez utópica, irrealizável, de pensar caminhos concertantes para o nosso tempo – sim, eu, que tomando de empréstimo um maravilhoso personagem de Dostoiévski, não passo de um homem ridículo, como aliás (sejamos sinceros) todos nós.
Havendo me dedicado ao longo de quase toda minha vida e, em particular, nos últimos vinte anos, em ler, estudar e conversar sobre os clássicos da literatura universal, pude ir acumulando certas intuições sobre os caminhos e descaminhos do humano, de seus concertos e desconcertos, que me tem permitido chegar a algumas conclusões que, talvez, tenham o seu valor. Mais recentemente, comecei a compartilhar estas intuições e conclusões em forma de livros e artigos que venho publicado em colunas de revistas especializadas, como a “Responsabilidade Humanística” na Isto É-Dinheiro. Achando insuficiente escrever para um público específico dentro de um escopo editorial determinado (e ainda mais muito limitado em termos de caracteres) resolvi, com a orientação e apoio das minhas colaboradoras e colaboradores, iniciar essa newsletter, onde, sem as justificáveis determinações editoriais, pudesse exercitar essa minha sina de escrever e expressar aquilo que me sobe do coração à cabeça, sem ter de me preocupar sobre o que e o quanto estou escrevendo e para quem especificamente.
Essa Newsletter tem o título de “Saúde Existencial” simplesmente porque ainda que ela não esteja direcionada a nenhum público específico e nem esteja comprometida com uma “pauta” específica, ela tem o objetivo de compartilhar experiências, ideias e reflexões que contribuam de alguma forma para a promoção da saúde existencial dos leitores e leitoras. Mas o que quero dizer com o termo “saúde existencial”?
Muito se tem falado a respeito da nossa saúde mental nestes últimos tempos. Tomando como base os dados divulgados por vários organismos e instituições nacionais e internacionais, é possível afirmar que, passada a pandemia da Covid-19, nos vemos diante de uma nova “epidemia”: a dos transtornos psíquicos. Observamos uma mobilização gigantesca para tentar enfrentar os efeitos desta nova pandemia, assim como encontrar recursos de prevenção e tratamento. Entretanto, será que as verdadeiras causas deste fenômeno estão sendo consideradas e compreendidas? Minha percepção a respeito desta grave questão é que na base, na raiz de tudo isto está uma profunda crise existencial. E, portanto, minha convicção é que o conceito de saúde mental já não é mais suficiente para explicá-la. Por isso proponho a Saúde Existencial como uma forma de cuidarmos melhor da nossa saúde física e mental. Através desta newsletter pretendo, mensalmente, oferecer artigos que contribuam para despertar nossa consciência sobre a dimensão existencial da nossa saúde, assim como propor caminhos de reconexão com aquilo que é próprio do humano. Porque se insistirmos em viver uma vida inapropriada, à imagem e semelhança das máquinas, não só estaremos condenados a nos desumanizarmos, mas também a comprometermos nossa saúde de forma irreversível.
Nosso tempo está desconcertado. Não sei se conseguiremos algum dia concertá-lo ou ao menos salvá-lo de um fim trágico. Só sei que por amar entranhadamente as pessoas e o mundo, que se encontram hoje tão doentes, decidi abrir esta canal de diálogo para, de alguma forma, pensarmos juntos em maneiras de sermos mais saudáveis e, quem sabe, fazer deste nosso mundo um lugar melhor. Não sei se essa é minha “sina”, mas é aquilo que me mobiliza e dá sentido à minha existência. Agradeço àquele(a)s que queiram me acompanhar e contribuir.






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