“No pensamento indígena, os princípios naturais e sobrenaturais estão em equilíbrio. Existem homens e mulheres, à sombra se segue a luz, à chuva a seca, ao silvestre se opõe o domesticado e ao mundo de cima, o de baixo. Quando o equilíbrio se rompe, sobrevém o caos; forças incontroláveis se apoderam do universo, ameaçam com a desordem e o terror. É neste momento em que os homens sábios intervêm para devolver a ordem ao mundo; por meio de oferendas sagradas, restauram o equilíbrio e fazem com que a vida siga seu curso.”

Este pequeno texto, originalmente escrito em espanhol e livremente traduzido por mim, encontra-se num dos painéis da fantástica exposição de peças arqueológicas que compõem o acervo do Museu do Ouro da cidade de Bogotá. Como indica o nome do museu, a maioria das peças ali expostas são feitas de ouro, fabricadas por hábeis e inspirados artesãos que habitaram a região que hoje é a República da Colômbia, muitos séculos antes da chegada dos conquistadores espanhóis.

Fui a Bogotá acompanhando minha esposa, que participou de uma conferência latino-americana na área da educação, e confesso que entrei no museu com a normal expectativa de quem está bastante acostumado a esse tipo de experiência, parte constitutiva da minha própria atividade profissional. Entretanto, não sei se pela impressionante qualidade técnica e estética das obras lá expostas, pela carga imagética profunda ali comunicada ou pela conjunção de tudo isso com o momento crítico e delicado que nós, como seres humanos, estamos passando na atualidade, o impacto desse inocente passeio sobre mim foi algo inédito. Particularmente, uma parte específica da exposição, dedicada aos objetos de culto, de representação cosmogônica e de ação mágica por parte dos xamãs, me emocionou especialmente. Foi ali, na entrada da sala, que encontrei o texto que reproduzi acima.

Sala da Oferenda, Museu do Ouro (Bogotá)

Emocionei-me ao me dar conta, a partir da experiência estética despertada não só pela beleza do brilho dourado, da delicadeza do trabalho sobre o metal e a singeleza das figuras representadas, da profunda sabedoria que aquelas pequenas e harmoniosas peças comunicavam. Uma sabedoria ancestral e autêntica, tão verdadeira, e que nós, homens modernos, tão obcecados com o grande e o ostensivo, com a tecnologia e a inovação, esquecemos e praticamente destruímos, como nossos ancestrais fizeram com essas antigas culturas e civilizações.

Emocionei-me, portanto, ao constatar, diante desse fragmento ínfimo e quase ocasional da nossa memória ancestral, o quão pobres e miseráveis ficamos, justamente quando acreditamos haver alcançado o progresso, o conhecimento e a evolução.

Emocionei-me ao perceber o quanto a nossa civilização, que solapou e destruiu aquelas que produziram essas pequenas maravilhas, testemunhos de um conhecimento tão maior e mais profundo, pode ser, neste momento, identificada com as forças caóticas, terríveis e destrutivas que ameaçam o equilíbrio, a ordem, a beleza e a própria vida em nosso mundo.

E emocionei-me ainda mais ao me deparar com aquela mensagem sobre o papel dos “homens sábios”, responsáveis por restaurar, por meio das “oferendas aos deuses”, a ordem, a harmonia, a beleza e a paz ao cosmos.

Fiquei pensando: quem seriam esses “homens sábios” de hoje? Quem seriam esses xamãs, sacerdotes, homens e mulheres capazes de conhecer e se comunicar com as outras dimensões da realidade que ficaram ocultas, esquecidas, marginalizadas? E, para além disso, quais seriam essas oferendas a serem destinadas aos “deuses”, a essas mesmas realidades ocultas, invisíveis, porém tão reais e constitutivas da ordem da vida, da existência, da saúde?

Ainda não sei a resposta, mas, mesmo não sabendo de nada, desconfio de muita coisa, como ensinava Riobaldo, de “Grande Sertão: Veredas”. Desconfio que esses “homens sábios” que existiam entre nossos ancestrais talvez sobrevivam de forma quase inconsciente naqueles e naquelas que chamamos de artistas, de inspirados, e que muitas vezes são considerados loucos. E desconfio também que suas “oferendas” são justamente a sua vida e a sua obra.

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