A terrível tragédia que vem assolando dezenas de cidades no Rio Grande do Sul, ceifando centenas de vidas e causando transtornos e prejuízos incalculáveis a milhares de pessoas, apresenta-se como um dos episódios mais tristes da nossa história recente. Para além da tristeza, outro sentimento que também vai ganhando proporções cada vez maiores é o medo, a preocupação, ao se reconhecer que episódios como este vão se tornando assustadoramente frequentes e pavorosamente mais graves, apontando para um futuro (próximo) por demais catastrófico.
Desastres naturais, agravados pela irracionalidade com que nós, seres humanos, temos nos relacionado com o meio ambiente, não são, infelizmente, nenhuma novidade, pois com eles convivemos desde sempre. O que, sim, tem chamado a atenção é a gravidade, intensidade e frequência com que, nos últimos anos, eles têm ocorrido em diversos pontos do globo. Sabemos que nosso planeta, desde os inícios, é um ente dinâmico e que grandes mudanças geológicas e climáticas aconteceram antes do nosso aparecimento, e nada indica que elas tenham cessado depois que passamos a pulular e a transformar radicalmente a face desse astro a que chamamos de Terra. Muito pelo contrário, a ciência já descreveu com bastante precisão as oscilações climáticas pelas quais a humanidade já passou, destacando os períodos de glaciação, que tanto afetou a dinâmica dos grupos humanos ao longo de milhares de anos. Portanto, seria leviano afirmar que as mudanças climáticas que hoje constatamos e sua intrínseca relação com os desastres naturais que nos afetam sejam determinadas exclusivamente por nossa ação predatória irresponsável. Por outro lado, entretanto, negar a influência de fenômenos como a emissão de gases resultado da atividade industrial e do consumo desenfreado, assim como o desmatamento das florestas e a poluição do solo, águas e ar, no aceleramento ou agravamento dessas mudanças, mais do que leviano, é estúpido e extremamente perigoso.
É por demais evidente que essa ação espoliadora do homem frente à natureza, intensificada especialmente a partir da chamada Era Moderna e radicalizada no contexto da Revolução Industrial e da Globalização, não apenas acelerou as inevitáveis mudanças climáticas como determinou uma dinâmica e direção claramente distinta daquela que as “forças da natureza” a princípio tenderiam a realizar, uma vez que aqui parece viger o princípio do equilíbrio e da compensação. Ou seja, constata-se, no momento presente, que a lógica da relação entre seres humanos e natureza, particularmente no contexto da Modernidade, tem como consequência um efeito devastador que vai comprometendo o frágil equilíbrio ecológico do planeta e, inevitavelmente, a nossa sobrevivência. Diante disso, começamos a nos perguntar: será que o gênero humano apareceu na Terra com o desastroso destino de destruí-la e, como consequência, se autodestruir? Se formos tomar como base o comportamento histórico do modelo hegemônico que se afirmou especialmente nos últimos séculos – o da civilização ocidental moderna-imperialista- capitalista -, tudo indica que a resposta parece ser positiva. Contudo, se levarmos em conta as narrativas produzidas pelo gênio místico e poético de nossos antepassados, atualizados pelos artistas e mentes inspiradas de todos os tempos, etnias e culturas, encontraremos uma resposta completamente diferente.
No primeiro livro que compõe um dos compêndios narrativos mais importantes e mais antigos da história da humanidade, a Bíblia, encontramos o relato da criação do mundo que, numa linguagem poética e mítica (que nem por isso pode ser considerada menos verdadeira que a chamada linguagem científica), vai descrevendo o aparecimento do cosmos ao longo dos “dias”, culminando na criação do homem e da mulher no “sexto dia”. Criado “à imagem e semelhança” do Criador, o ser humano, segundo o(a) autor(a) do Livro do Gênesis, estava destinado a consumar na Terra a obra iniciada por Deus. Para tanto, “Iahweh Deus plantou um jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o ser humano que modelara. (…) Iahweh Deus tomou o ser humano e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar.” (Gn 2, 8; 15)
De acordo com o Livro do Gênesis – e não só, pois esta mesma ideia, com peculiares variações, pode ser encontrada nas narrativas das mais distintas tradições culturais, desde a América até a Oceania -, nós, seres humanos, fomos modelados por Deus e colocados num jardim por Ele plantado, em Éden, para que ali déssemos continuidade à sua obra, cultivando-o e guardando-o. Em suma, por meio do relato bíblico somos informados que nossa vocação original era a da jardinagem. Fomos criados e moldados para sermos jardineiros, para cultivarmos e guardarmos o jardim plantado pelo próprio Deus.
Tudo leva a crer que a ideia, o projeto de Deus, era começar no oriente, em Éden, para depois ampliá-lo em direção ao ocidente, abarcando o norte e o sul, ajardinando assim todo o planeta, todo o universo, toda a criação. Ou seja, de acordo com essa imagem arquetípica e universal, retomada frequentemente pela imaginação poética de tantos gênios da literatura, como Cervantes, Shakespeare, Dostoiévski e outros, estamos aqui para transformar o universo num jardim, segundo o modelo plantado em Éden. No entanto, o que estamos fazendo?
Segundo a lógica mítico-poética, os desastres naturais que se intensificam assustadoramente no tempo presente derivam do desastre humano. A palavra desastre, de origem latina, resulta da junção de dois vocábulos: dis, que quer dizer “contrário”, “inadequado”, e aster, que significa “astro”, “estrela”. Assim, um desastre pode ser entendido como algo que é resultado de uma influência astral nefasta, mas também como a consequência de se deixar guiar por uma má estrela, por um caminho equivocado. Não há dúvida de que em um certo momento da nossa história fizemos uma escolha errada, uma escolha desastrada e, como consequência, estamos precipitando desastres trás desastres, não só para a natureza, para o cosmos, como também para nós mesmos do ponto de vista existencial. Talvez tenha chegado o momento decisivo de nos conscientizarmos de que é preciso reconhecer a opção desastrosa que fizemos e na qual ainda insistimos, e então corrigirmos a rota; deixarmos de seguir o astro do nosso orgulho, do nosso egoísmo, da nossa ignorância em relação ao nosso destino e passarmos a seguir uma outra estrela, aquela que nos reconcilia com o universo, com a natureza e que nos ensina a sermos guardadores, cultivadores, e não exploradores e destruidores. É tempo de abandonarmos nossa sina de devastadores para retomarmos nossa vocação de jardineiros. É tempo de voltarmos ao jardim antes que o desastre seja irreversível.






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