Poucos meses atrás, encontrei, num evento sobre ESG, um amigo de longa data que hoje desempenha função diretiva numa grande empresa multinacional. Aproveitando a oportunidade, sugeri que almoçássemos juntos, com tranquilidade, para colocar o papo em dia e relembrar os velhos tempos. Visivelmente contrariado, ele se desculpou, dizendo que já tinha um almoço marcado com um cliente naquele dia. Nos despedimos tristes. Fazia tanto tempo que não nos víamos e oportunidades como aquela eram tão poucas… Por uma incrível casualidade, entretanto, nos reencontramos de forma inesperada dois dias depois. Perguntei-lhe então como tinha sido o almoço com o cliente e ele me respondeu: tenso. Perguntei-lhe então o que havia comido e ele me disse que nem se lembrava. Esta pequena anedota do destino me levou a recordar um ensaio que escrevi há mais de uma década e que foi publicado na Revista de Estudos Avançados da USP, com título de “A desumanização do comer”. Convidado a refletir sobre a dimensão humanística do ato de comer num encontro sobre nutrição, resgatei as imagens mais icônicas deste costume na história da literatura universal, o “Banquete” de Platão e a última ceia de Jesus nos “Evangelhos”, ponderando o quanto o ritual da refeição em comum sempre teve um papel essencial para a nossa humanização e para o nosso equilíbrio social e existencial. Mais recentemente, voltei a revisitar o tema na 10ª lição do meu “É próprio do humano: uma odisseia do autoconhecimento e da autorrealização em 12 lições” (Record, 2022; finalista do Prêmio Jabuti 2023) e, estudando Homero, me deparo com esta evocativa afirmação: “não há na vida nada melhor do que estar à mesa com os parentes e amigos, comendo e bebendo, enquanto se contam e escutam histórias”. 

Comer e beber é, certamente, a ação mais instintiva e necessária do ser humano e, ao mesmo tempo, aquela que mais nos aproxima dos outros seres vivos do planeta. É curioso, entretanto, que este mesmo ato animalesco acabou sendo escolhido em quase todas as tradições religiosas e filosóficas para evocar o encontro com o divino. É ao redor da mesa de refeição que podemos não apenas alimentar nosso corpo, mas também e principalmente nossa alma, nosso espírito. No âmbito biológico, refeição significa refazer nossas forças físicas, porém em sua perspectiva mais espiritual, esta bela palavra engendra a ideia de nos re-fazer, de nos fazer melhores, mais humanos. Num contexto em que transformamos o ato de comer num processo meramente mecânico e utilitário, que reduziu o ritual da refeição em um mero pit stop para uma triste fast food, alimentar-nos passou a ter um sentido estritamente produtivo; um tempo necessário para abastecer a máquina ou recarregar as baterias.

Ao pensarmos nos caminhos que nos ajudam a recuperar nossa saúde existencial, base e fundamento para nossa saúde física e mental, é preciso ponderar a maneira como estamos nos alimentando, não apenas em termos de quantidade e qualidade – o que tem sido muito bem pontuado por médicos e nutricionistas – mas também em termos de circunstâncias e ritos. Trata-se de estarmos atentos não apenas aos alimentos que comemos (mais saudáveis, naturais e equilibrados) mas também como e, principalmente, com quem comemos. É necessário, com urgência, resgatar o caráter agápico (de ágape, que significa banquete e amor ao mesmo tempo) do momento da refeição; de reencontrar aquela experiência que Karen Blixen, autora do maravilhoso “Festa Babette” descreve como a aquisição de uma “leveza de espírito” quando se come e bebe na medida certa, em boa companhia. Reduzir nossas refeições em almoços de negócios, onde a tensão e a pressa substituem a alegria e o sabor não só é fonte de adoecimento, mas de empobrecimento espiritual, de desumanização. 

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