Não sei se minha percepção me engana, mas venho notando nos últimos tempos um fenômeno, talvez uma tendência, que tem me intrigado e preocupado — e, confesso, causado um pouco de enjôo também. Trata-se da post-comunicação. Aviso que o termo não é um dos mil neologismos que brotam profusamente por aí todos os dias, mas uma pura invencionice minha. Talvez fosse até mais estratégico chamá-la de postcomunication, mas como minha intenção não é a de inventar moda e ganhar royalties, fica no português, mesmo. Chamo de post-comunicação essa mania, cada vez mais prevalente, de se comunicar, nos aplicativos de mensagem, por meio de posts. Não sei se acontece com você, leitor(a), mas no meu WhatsApp, de cada dez mensagens que recebo, cinco são links que remetem a posts de outras redes sociais: Instagram, LinkedIn, TikTok, Facebook, YouTube, etc. Até pouco tempo atrás, tais links ainda vinham com alguma legenda ou texto complementar do emissário da mensagem, com algum comentário ou explicação do porquê daquele envio. Aos poucos, os textos autorais foram desaparecendo, até chegar no simples encaminhamento, sem nota alguma. Um post seco, que, obviamente, pede para ser aberto, lido, assistido, com música, ruído, legenda, etc.

Desde o Gênesis, a dinâmica da vida humana neste planeta tem sido marcada pelo crescei, multiplicai e espalhai-vos. Em contrapartida, na mesma medida em que nos afastamos uns dos outros, fomos procurando meios de manter laços, de diminuir distâncias. Começamos com mensageiros e, após a invenção da escrita, criamos as cartas. Com o surgimento do telégrafo e do telefone, fomos encontrando meios muito eficazes de contornar o distanciamento e a solidão. A revolução digital possibilitou que chegássemos num simulacro quase perfeito do encontro face a face. Tão perfeito e cômodo que, a partir de então, começamos inclusive a abrir mão dos inconvenientes da presencialidade para passar a preferir, mesmo estando na mesma casa, comunicarmo-nos por meios digitais em vez de sairmos do quarto ou do sofá para irmos fisicamente ao encontro do outro. A praticidade tornou-se o valor hegemônico nas relações e, assim, o que a princípio foi criado para driblar a distância acabou se tornando instrumento de afastamento.

Nos tempos que correm, observamos que a facilidade e o excesso de meios de comunicação gerou uma situação paradoxal. Quanto mais conectados, mais distantes estamos uns dos outros. Entretanto, o fenômeno da post-comunicação parece representar uma nova etapa nesse processo. Para além do distanciamento, verifica-se o apagamento do interlocutor. Começamos por dispensar a conversa sincrônica — mesmo tendo meios cada vez mais sofisticados para tanto — para nos utilizarmos cada vez mais de enfadonhas gravações de voz — que, aliás, escutamos em velocidade acelerada. No mesmo sentido, fomos trocando a linguagem escrita por pobres e horrorosos emojis, ou então por tags tão engraçadas quanto impessoais e genéricas. Entretanto, ao chegarmos na comunicação por meio de posts, o apagamento do emissor da mensagem me parece atingir seu nível mais radical.

Na post-comunicação eu já não digo nada; apenas encaminho a fala do outro. É claro que quando envio um post, um vídeo, um meme, estou tentando transmitir algo. Entretanto, faço isso de forma cada vez menos mediada — ou seja, sem a minha marca, minha opinião, minha reflexão. O fenômeno da post-comunicação parece indicar que não apenas estamos perdendo a capacidade de nos comunicar, mas também de pensar, refletir e discernir. Mostramos que não apenas estamos perdendo a capacidade de escrever por conta própria, como estamos desaparecendo enquanto pessoas, seres capazes de reelaborar e ressignificar os estímulos que nos chegam do mundo. Seguindo por esse caminho de maneira acrítica, acredito que em pouco tempo já nem precisaremos nos incomodar em encaminhar os posts interessantes que encontramos em nossa imersão quase delirante nas redes sociais, pois os sistemas de inteligência artificial se encarregarão de selecioná-los e enviá-los automaticamente para nossos “interlocutores”. Sendo assim, teremos todo tempo do mundo para nos perdermos no oceano das superficialidades e das ilusões disfarçadas de coisas sérias e profundas que a web nos oferece. Imaginando estar mais conectados e próximos do que nunca, viveremos o isolamento e a solidão mais radical que nos leva ao simples apagamento do ser. 

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