Faz poucos dias li um conto de Valter Hugo Mãe que não conhecia e que me encantou. E o encantamento começou já pelo título: “O rapaz que habitava os livros”. Toda narrativa é um convite para uma viagem rumo ao desconhecido que pode nos surpreender ou nos decepcionar. Entretanto, uma história que já nos põe a sonhar e a refletir a partir do título merece atenção redobrada. Que imagem mais feliz e poderosa: habitar um livro…

O poder de um livro está diretamente relacionado à sua força de abdução; à capacidade de capturar nossa atenção, nosso espírito e nos fazer esquecer do mundo ao redor e de nós mesmos; de nos libertar de nossas preocupações, pensamentos, manias, ressentimentos, mágoas. A grande virtude de uma história é a de nos libertar. Sim, porque, ainda que não percebamos, vivemos a maior parte do tempo escravizados, presos num mundo que insiste em se impor como “realidade” indiscutível e fechada, inescapável. E esta “realidade”, com suas obrigações, cobranças, horários, metas e rotinas, cobra um preço muito alto que restringe, sufoca e empequenece nossas almas. Não à toa andamos tão doentes. Como pode um ser humano viver estando sua alma sistematicamente limitada, emparedada pela “realidade” de um mundo caracterizado pela eficácia, performance e produtividade?

No conto de Valter Hugo Mãe, o protagonista, aluno de um colégio interno, sofre porque lhe proíbem o acesso aos livros à noite, em seu dormitório, uma vez que as autoridades pedagógicas decidem que a leitura prejudica o tempo dedicado ao sono, necessário para a recuperação das forças a serem investidas nas úteis e produtivas tarefas escolares. Em tempos como os nossos, quando se fala tanto da importância da leitura e as escolas se empenham em encontrar meios de incentivo a esta fundamental atividade, uma situação como essa descrita no conto nos remete há épocas quase medievais, quando o ato de ler poderia sugerir algo subversivo, perigoso. Contudo, não é difícil identificar a contemporaneidade da fantasia do ainda jovem escritor lusitano, quando pensamos nas novas e mais sutis formas de controle e restrição que nos são impostas em relação aos livros. Hoje, o que nos separa dos livros já não são mais carrancudos diretores ou obtusos bedéis de internato, mas a ilimitada oferta de estímulos digitais que nos cercam por todos os lados e nos acompanham desde a hora em que despertamos até o momento em que adormecemos — cada vez pior, registre-se. A lógica do consumo que está subjacente a toda essa chamada “revolução digital” dá-nos a falsa sensação de ampliação da “realidade”. Porém, o que acaba por causar é um aprisionamento cada vez maior e radical a essa dimensão estreita e labiríntica que avilta nosso potencial humano, fazendo de nós cobaias-consumidores.

Pensar nos livros como lugares a serem habitados evoca-me, de imediato, portas de escape, rotas de fuga, que dão acesso a outras dimensões do real; a espaços de liberdade do espírito e de expansão da alma. Num primeiro momento, o entregar-se à leitura de um livro — um livro “inútil”, de “ficção”, evidentemente — pode nos gerar (a nós que já estamos tão condicionados a “aproveitarmos” nosso tempo com coisas produtivas) uma desagradável sensação de culpa, ou então de “fomo” (fear of missing out), uma vez que ao estarmos habitando um livro deixamos escapar muitas informações importantes, stories e outras ofertas imperdíveis que não cessam de nos chegar em nossos smartphones. Diante disso, torna-se imprescindível avançar sem medo pelo umbral que nos dá acesso a esta habitação desconhecida — ainda que talvez muitas vezes visitada — que um livro proporciona. Sim, avançar decididamente pela porta e fechá-la atrás de nós para evitar que os ruídos e apelos do exterior entrem. E, uma vez lá dentro, recomendo se deixar levar pela mão das personagens, das descrições, da trama e de tudo mais que magicamente habita esse fantástico universo que é um bom livro. Logo iremos descobrir, como nos ensina Valter Hugo Mãe, que “os livros acontecem dentro de nós”, e que ler é como “caminhar dentro de mim mesmo”. Por isso, gosto de imaginar que, nessa curiosa habitação que é o livro, há sempre uma porta dos fundos que nos leva a um quintal, um jardim infinito que vai muito além da casa, onde vamos descobrindo dimensões cada vez mais amplas e profundas não só de nós mesmos, mas de toda a humanidade e da própria realidade, que transcende fartamente a realidade estreita e monótona da calçada da vida cotidiana. E então, depois de passarmos algum tempo perambulando por essas habitações com seus jardins, podemos voltar não só verdadeiramente renovados, mas efetivamente curados. Curados a ponto de distribuir um pouco dessa saúde luminosa que anda tão escassa no mundo desumanizado onde nos toca viver.

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