Há poucos dias fiz uma postagem em minhas redes sociais falando sobre o encontro do qual tive o prazer de participar aqui em São Paulo, no Dia Mundial do Livro, com a jornalista espanhola Pilar del Río, viúva do Nobel de Literatura José Saramago. Neste post, mencionava sobre um acontecimento biográfico ocorrido há 40 anos, envolvendo o escritor português. Desde então, tenho recebido reiterados pedidos para que eu contasse em detalhes esta história. Portanto, atendendo a estas demandas virtuais e a outras que me foram feitas por meus filhos e alunos, aproveito este espaço para compartilhá-la e deixá-la registrada.
Entre fins de 1986 e início de 1987, acompanhei meu avô materno, Manuel Claramonte López, em um giro por sua terra natal. Manolo, como todos o chamavam, havia imigrado para o Brasil no começo dos anos 1950, e desde então só tinha tido a oportunidade de retornar à Espanha uma vez, em 1974, e ainda assim com muito receio, pois durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), lutou do lado da República contra o golpe de estado liderado pelo general Francisco Franco, que acabou por submeter o país a um duro regime ditatorial que só terminou depois de sua morte, em 1975. Pouco mais de dez anos depois, sendo eu, na ocasião, um estudante de História na USP que começava a me interessar pelo passado familiar, conseguimos realizar o sonho de irmos juntos visitar a terra dos antepassados e conhecer in loco as personagens e paisagens que habitavam meu imaginário desde a infância.
Depois de passar uns dias em sua aldeia natal, Tobarra, na província de Albacete, região de Castilla la Mancha, e visitar alguns parentes em outras cidades espanholas, como Madrid e Valencia, fomos percorrer as maravilhas muçulmanas da Andaluzia. Ao chegarmos a Sevilha, senti desejo de esticar o percurso e dar uma “passadinha” em Lisboa, a fim de conhecer as raízes da minha língua pátria. Manolo, confessando já não ter energia para acompanhar um jovem de 20 anos em pleno furor de descobrimento, decidiu retornar a Tobarra e lá me esperar até o fim do meu périplo lusitano, para então voltarmos ao Brasil.
Naquela época, o meio mais simples e econômico para ir de Sevilha a Lisboa era por ônibus, ainda que o trajeto não durasse menos de sete horas, percorrendo estradas precárias e tortuosas. Despedi-me de Manolo na rodoviária e logo entrei num ônibus lotado, calhando sentar ao lado de um senhor português de meia-idade, muito sério, formal, mas cordial. Dado meu caráter extrovertido, logo puxei conversa e, antes mesmo que tivéssemos deixado a província de Sevilha, já nos dávamos como se nos conhecêssemos há muitos anos.
Ele me disse que era jornalista e que vivia em Lisboa, mas que há pouco havia começado um romance com uma sevilhana a quem tinha ido visitar. Talvez pelo hábito da profissão, lembro-me que ele muito mais perguntou do que falou. Já eu, jovem, deslumbrado com tudo e ainda estudante de História, falei muito mais do que perguntei. Contei-lhe a história do meu avô, sobre a qual se interessou sobremaneira. Recordo ainda que falamos de muitas outras coisas, porém não saberia precisar sobre o quê, afinal já vão aí 40 anos… De qualquer forma, mal senti passar as sete horas e pouco que deve ter durado nossa viagem.
Quando estávamos chegando a Lisboa, o senhor tirou da carteira um cartão de visita, onde constava seu nome, profissão (jornalista) e endereço, e dando-me, disse que estava à disposição para o que necessitasse durante minha estada na cidade. Em seguida, despedimo-nos com um caloroso aperto de mão.
Hospedei-me numa pensão onde encontrei uns rapazes de Angola e Moçambique que foram guias excepcionais e muito divertidos da então encantadora e decadente capital portuguesa. Alguns dias depois, peguei um trem para Madrid e de lá para Tobarra, onde reencontrei meu avô. Contei-lhe então do meu colega de viagem, mas ao voltar ao Brasil o esqueci quase completamente.
Mais de dez anos depois, vejo no jornal a fotografia de um senhor desconhecido, porém inexplicavelmente familiar. A manchete me informa que se tratava do primeiro Nobel de Literatura dado a um escritor de língua portuguesa: José Saramago. Seu nome me soava, porém ainda não havia lido nada de sua lavra. Entretanto, a associação entre aquele nome e a fotografia despertou algo longínquo, profundo e cálido em minha memória: “aquele senhor, aquele meu colega de viagem entre Sevilha e Lisboa… Seria possível? Não, não pode ser!” Olhei mais atentamente a foto e, como num processo de revelação em câmara escura, a imagem foi se tornando mais nítida na recordação. Corri até o armário onde guardava meus souvenires de leituras, pesquisas e viagens e eis que encontrei o cartão de visitas que aquele senhor me havia dado na ocasião. Meu coração disparou. No cartão se lia: “José Saramago, jornalista…”
Guardei com carinho aquele precioso e amarelado cartão, porém desde então foram dezenas de anos, de mudanças de casas, de ganhos e perdas e, no meio de tudo isso, não tenho ideia de onde possa andar o documento histórico. Entretanto, a recordação, em forma de história oral, nunca deixou de me acompanhar. E quase sempre vêm à tona quando, ao ler e discutir o “Conto da Ilha Desconhecida” com meus grupos de Laboratório de Leitura, alguma participante me pergunta quem poderia ter sido a inspiração para a criação da personagem da Mulher da Limpeza.
E eis que então, no último dia 23 de abril, instigado por minha mulher, que como a Mulher da Limpeza do conto de Saramago é muito, muito mais do que a mulher da limpeza, vou assistir a uma conferência da carismática e afetuosa Pilar del Río, em visita a São Paulo. Terminada a fala, durante a sessão de autógrafos de seu último livro, novamente encorajado por minha mulher, conto-lhe, brevemente, a história descrita acima. E qual não foi minha surpresa quando ela, muito entusiasticamente, disse-me: “Sim, sim, eu me lembro, naquela época, de José me contar que havia encontrado, numa das viagens entre Sevilha e Lisboa, um jovem brasileiro com quem havia conversado com muito gosto durante sete horas!”
Era o Dia Mundial do Livro, mas quem ganhou o presente fui eu!





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