“A beleza salvará o mundo”. Posso apostar que não é a primeira vez que você, querido(a) leitor(a), lê esta magnífica frase. Seu autor é o romancista russo do século XIX Fiódor Dostoiévski, e ela aparece originalmente numa obra sua intitulada O Idiota, publicada em forma de folhetim entre os anos de 1868 e 1869. Desde então, esta máxima vem sendo reproduzida, estudada, analisada, gerando perplexidades, questionamentos, mobilizações. Mais recentemente, com as redes sociais, ela foi redescoberta e passou a ser usada e abusada, banalizada em posts chamativos, como legenda de alguma fotografia digitalizada da peculiar efígie do seu autor, muitas vezes ornamentada com emojis ou animações fofinhas. É uma pena que frases assim, tão geniais e carregadas de potentes significados, sejam apropriadas pelo mundo midiático para serem utilizadas como slogans maneiros, perfeitos para quem quer pagar de cult e descolado na web. Entretanto, meu objetivo aqui, ao retomá-la, não é o de me unir ao “gado digital” e ser mais um que, na premência de postar e aparecer e, na falta de algum conteúdo de “caráter culto”, com a devida ajuda da IA, engrossar o “coro dos inteligentes”, gerando ignóbeis likes. Na verdade, pelo contrário, minha intenção é a de procurar desbanalizar a frase de Dostoiévski, libertando-a da embalagem publicitária e superficializante que as mídias sociais a aprisionaram, para que possamos ser efetivamente atingidos e interpelados pela força e potência que nela se encerram. Sinto que nunca, como nos nossos dias, tenhamos tanta necessidade da beleza. Também estou convencido que nesse contexto algorítmico de desumanização e adoecimento, só ela, a beleza, pode nos salvar.
Mas afinal, que beleza é esta que pode nos salvar? A tradição clássica, partindo de Sócrates, Platão e Aristóteles, associou-a àquilo que é bom, justo, virtuoso. Segundo essa concepção, aquilo que é belo aos nossos sentidos tem o poder de nos elevar, de nos humanizar, de nos fazer melhores. A experiência estética diante de uma paisagem, de uma peça musical ou de um poema mobiliza nossos afetos, nossa inteligência e nossa vontade, transformando nossa maneira de ver o mundo, os outros e a nós mesmos. A beleza aqui é algo que vai muito além da boniteza, da mera aparência, da superficialidade; ela é a forma estética que nos direciona para a ética, para o bem, para a excelência. Para Dostoiévski, contudo, sem deixar de proporcionar uma experiência despertadora que nos interpela, nos cura e nos instiga a ser melhores, a beleza vai muito além disso. Em O Idiota, o protagonista Príncipe Michkin, ao ser questionado sobre o que seria afinal a beleza, responde: “É difícil julgar a beleza; eu ainda não estou preparado. A beleza é um enigma”. Por meio de sua imortal obra, Dostoiévski aponta o caráter intrinsecamente paradoxal que se encontra presente em tudo que é autenticamente belo. Ao mesmo tempo que nos atrai, a beleza também nos fere, nos incomoda. Em suma, a beleza nunca é algo “fácil”, “agradável”. Daí seu caráter enigmático.
Em sua última e definitiva obra, Os Irmãos Karamázov, o escritor-profeta vai além, chegando a afirmar que a beleza “não só é uma coisa misteriosa, mas também terrível!” O impulsivo e arrebatado Dimitri Karamázov, o mais velho dos irmãos, confessa que descobriu a beleza tanto na Madona (a representação da Virgem Maria, Mãe de Deus) quanto em Sodoma (a cidade-símbolo da perversão e do vício). De maneira que aquele que se deixa interpelar pela beleza “está perdido”, pois a partir de então lhe é revelado o verdadeiro drama da existência: a constatação de que o bem e o mal, “Deus e o diabo travam uma guerra e o campo de batalha é o coração de cada ser humano”. A beleza, portanto, nos leva à terrível constatação de que somos livres e responsáveis por nossas escolhas.
Seguindo pela trilha aberta por Dostoiévski, gosto de pensar que a beleza é terrível porque nela está a revelação mais ampla e profunda da realidade. Não da realidade “customizada”, adaptada para nosso gosto e consumo, mas da realidade verdadeira, maravilhosa e terrível; da realidade que se manifesta na imanência e na transcendência, daquilo que está fora e dentro de nós, daquilo que apreciamos e odiamos, daquilo que revela o que há de divino e de diabólico em nós, tal como constatamos, por exemplo, lendo a Divina Comédia, de Dante Alighieri, cuja beleza não está restrita ao Paraíso, onde reinam a ordem e a virtude, mas também está no Purgatório, onde encontramos dor e sofrimento purificador, e no Inferno, onde prevalece o desespero e o terror. A beleza nos atrai e nos assusta, nos intriga e nos apavora, porque ela é a expressão mesma da verdade. E como é difícil lidar com a verdade. Num mundo cada vez mais voltado para a superficialidade, para o aparente, para o confortável, é natural o crescimento da kalofobia (o medo à beleza). Temos medo à beleza porque temos pavor da verdade, porque a verdade é desconfortável; ela nos interpela e nos convoca a agir, a ser – eis o profundo drama do Hamlet de Shakespeare: “ser ou não ser, eis a questão”. Quem reconhece a verdadeira realidade se vê obrigado a agir, e nós só passamos a ser quando agimos, quando fazemos aquilo que é preciso ser feito. Por isso, fugimos da beleza e nos refugiamos na boniteza, versão caricata e barata do belo; estética destituída de ética, carregada de filtros e botox, mas esvaziada de dilemas, dramas e existência. Entretanto, protegendo-nos da beleza, e, portanto, da verdade, nunca seremos capazes de realizar a nossa própria beleza — nossa kalokagathia, conforme a maravilhosa expressão homérica.
Realizar nossa própria beleza: eis o que nos torna efetivamente humanos; eis o que nenhuma Inteligência Artificial é capaz de realizar por nós. Mas como iremos realizar nossa própria beleza se não soubermos o que é a beleza, se não fizermos a incômoda e sublime experiência da beleza, que nos revela a realidade abissal, enigmática, sublime e terrível da verdade?
Hoje, mais do que nunca, constatamos que, diante das forças históricas que tendem a nos reduzir a agentes de alta performance, ou a meros formuladores de prompts da onipotente IA, não há outro caminho de salvação senão na beleza. Só ela pode nos colocar diante da realidade do que somos e do que podemos ser. Por isso, diante dos desafios que se apresentam para nós e para as futuras gerações, proponho uma educação fundamentada na experiência da beleza. Educar pela beleza e educar para a beleza: eis o que pode salvar a humanidade do seu sucateamento cognitivo e do seu naufrágio existencial.





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