Parece que foi Jorge Luis Borges, escritor argentino do século passado, que disse certa vez que só havia um prazer maior do que a leitura de um bom livro: a sua releitura. Nos dias que correm, fica cada vez mais difícil concordar ou até mesmo comprovar esta afirmação, pois se a leitura de um bom livro já é algo raro, que se dirá então da experiência da releitura. Num contexto em que, para uma esmagadora e crescente maioria, a leitura tem se reduzido ao que se recebe pelo WhatsApp ou ao que aparece escrito na legenda de uma foto ou vídeo postado numa rede social, considerar a possibilidade de reler um livro parece algo fora de propósito, comparável apenas à sua leitura, coisa que pode ser substituível por um bom e, principalmente, sintético resumo oferecido por qualquer IA disponível por aí.

E isto mesmo para aqueles que, heroicamente, insistem em ler livros – e não apenas os que aparecem como mais vendidos nas listas do TikTok, mas livros de verdade, os chamados clássicos, por exemplo. Até mesmo para estes seres admiráveis, considerar a possibilidade de reler um livro não deixa de gerar certo desconforto ou, pelo menos, certa perplexidade. Ora, com tantas coisas boas para ler, com uma lista tão extensa e com metas tão exigentes – pois, cabe ressaltar, atualmente o vício performático não se restringe apenas à produtividade laboral e aos templos de fitness, mas se estende ao universo dos leitores midiáticos que precisam apresentar sua pilha de livros lidos ao final de cada ano em suas redes sociais –, reler se torna, no mínimo, grande perda de tempo. Entretanto, quem já se permitiu cometer esse escandaloso pecado da contemporaneidade entende o que eu digo, quando, efetivamente, nos damos esse prazer de reabrir as páginas de um grande livro e relê-lo por inteiro ou, pelo menos, aquelas partes que grifamos a lápis. 

Na verdade, não se trata apenas de prazer, mas é algo que vai muito além. A releitura de um bom livro é algo comparável ao retorno ao lar, depois de um largo período de afastamento; é semelhante ao reencontro com a pessoa amada, com quem não podemos estar o tempo que gostaríamos; é como revisitar aquele local, aquela paisagem particularmente significativa, que nos remete a grandes descobertas que fizemos sobre nós mesmos e sobre o universo… Surpreendo-me quando, por motivos profissionais – uma vez que em função do meu trabalho de coordenador de Laboratório de Leitura me vejo obrigado a reler dezenas de vezes os mesmos livros –, pego-me emocionado até as lágrimas ao reler pela enésima vez aquele trecho de Anna Kariênina em que a protagonista, afastada de casa em função da sua situação de adúltera, volta para reencontrar o filhinho Serguei no dia de seu aniversário e o surpreende ainda na cama, despertando de um sonho em que justamente reencontrava sua mãezinha, que todos diziam haver morrido, mas que ele, no segredo do seu coração, sabia estar viva.

Reler todos os detalhes desta cena, à vez tão singela e forte – os empregados, instruídos a não permitirem a entrada da mãe indigna, deixando-a passar e sentindo que se fizessem o contrário estariam negando a própria ordem do universo —; a descrição das reações do menino e da mãe naquele encontro cheio de ternura, alegria e tristeza infinitas… Tudo isso, mais do que provocar emoções profundas – que, diga-se, já seria mais do que motivo suficiente para justificar a releitura –, abre perspectivas amplas, infinitas, sobre a compreensão dos sentimentos humanos, sobre regiões abissais do ser. Só mesmo a releitura pode nos dar esse peculiar acesso e assim se constituir num dos meios mais eficazes e poderosos de formação e aperfeiçoamento humanístico. 

Em seu mais recente livro, intitulado Falando sobre Deus, um diálogo com Simone Weil, Byung-Chul Han, afirma que o termo religio, origem latina da palavra religião, deriva de relegere (reler, ler novamente). E, citando o filósofo Giorgio Agamben, lembra que “a conscienciosidade e a atenção era o que devia prevalecer nas relações com os deuses”. Tudo o que é sagrado e importante para nós exige atenção; tudo que é essencial demanda uma “leitura atenta”, pede sempre uma “releitura”. Só essa leitura repetida e com atenção pode, efetivamente, nos reconciliar, nos religar com a “verdadeira ordem das coisas”, com os deuses, com Deus e com nosso semelhante. Em um mundo marcado pela velocidade, pela superficialidade e pela falta de atenção, observamos o crescimento de um assustador indiferentismo, que se alastra como uma praga. E, como bem ensinava Albert Camus, o ateu mais religioso que já li, a verdadeira peste não é aquela que provém dos vírus e bactérias, mas a que procede da falta de atenção. 

A releitura dos grandes livros tem sido, para mim, um exercício incomparável de atenção. Reler as grandes obras é uma forma privilegiada de reler as pessoas, de aprender a não julgar pela capa, ou por uma primeira leitura, mas de ir mais fundo no conhecimento e a prestar mais atenção. Reler: eis uma das mais nobres formas de praticar a religião. Isso porque reler nos ensina a amar as pessoas.

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