É muito provável que você, leitor(a), já esteja saturado(a) de posts, vídeos e artigos sobre o lançamento cinematográfico mais espetacular dos últimos tempos: a Odisseia, de Christopher Nolan. Digo isso porque eu, particularmente, confesso estar um tanto enjoado desse excesso de impressões, opiniões e pontos de vista que caracteriza nossa era da hiperconectividade. E isso não apenas em relação ao filme de Nolan, mas a respeito de tudo e qualquer coisa. É impressionante como numa época tão pobre em originalidade haja tanta “riqueza” de opiniões, críticas e comentários. Porém, ainda que correndo o risco de “chover no molhado”, senti que não poderia deixar de desperdiçar algumas linhas sobre o que achei da Odisseia de Nolan, uma vez que não apenas reli e discuti dezenas de vezes o texto original de Homero em vários grupos de Laboratório de Leitura, como escrevi um livro sobre ele que, justamente no corrente ano, ganhou uma segunda edição, pela editora Record: É Próprio do Humano: uma odisseia do autoconhecimento e da autorrealização em 12 lições.
Antes de tudo, independentemente do que achei da realização de Nolan, considero tal empreendimento algo muito significativo e positivo. Significativo porque recriar cinematograficamente uma das histórias mais antigas e fundamentais da tradição ocidental nos tempos que correm é uma proposta corajosa e carregada de amplos e profundos sentidos. Afinal, em momentos de crise como os que estamos vivendo, revisitar as origens é algo muito recomendável. Positivo porque já é perceptível o despertar de interesse que o filme vem provocando em todo tipo de público, especialmente entre os jovens, que manifestam o desejo de ler o texto original, a fim de conhecer melhor a história e poder comparar com a versão de Nolan. Tal fenômeno não é inédito. Já vimos isso acontecer, por exemplo, com os filmes de Harry Potter, que ajudaram a formar novas gerações de leitores, assim como a trilogia de Peter Jackson sobre O Senhor dos Anéis, que levou milhões de pessoas a descobrir a excepcional obra de J.R.R. Tolkien. Quando o cinema se torna um incentivo à leitura, há que se celebrar e reconhecer seu poder de despertar esse anseio tão humano de ir mais fundo, de conhecer mais e, principalmente, de ser melhor. Quando isso acontece com uma das obras mais importantes e influentes da história da humanidade, tal celebração tem um caráter muito especial.
Certamente, a coragem e o senso de oportunidade de Nolan em levar a Odisseia às telas não são as únicas virtudes deste empreendimento literalmente homérico. O filme é grandioso do ponto de vista técnico e, desenvolvendo ao máximo as habilidades já demonstradas em realizações anteriores, o diretor consegue provocar um efeito imersivo-hipnótico que prende o espectador a um verdadeiro espetáculo de imagens, gestos e sons, fazendo com que as três horas de duração passem quase despercebidas. Entretanto, do meu ponto de vista, tais méritos não vão muito além disso.
Toda versão, como o próprio nome indica, é sempre uma interpretação, e, portanto, para se analisar criticamente uma obra, deve-se levar em conta tal perspectiva. Por isso, esperar que o versador seja “absolutamente fiel” à narrativa original é não apenas uma ingenuidade, mas antes um disparate. Entretanto, quando a intenção do realizador vai além de propor algo “inspirado” na obra original e passa a ser a de recontá-la, como parece ser o propósito de Nolan ao batizar seu filme com o mesmo nome do livro de Homero, alguns cuidados precisam, necessariamente, ser observados. E aqui aparecem as primeiras e sérias escorregadelas do diretor britânico. A começar pela escolha de abordar a linha narrativa central da história, que, na obra de Homero, se estabelece a partir do recurso genial daquilo que, muitos séculos depois, se chamaria de in media res — ou seja, o artifício de introduzir a sequência cronológica da narrativa a partir do meio da história, esclarecendo ao leitor/espectador a partir da fala memorialística do protagonista a situação problemática em que ele se encontra. Nolan escolhe introduzir este recurso a partir de uma repentina curiosidade da ninfa Calipso, que mantém Ulisses refém em sua ilha durante sete anos. Na versão original, passamos a conhecer o que aconteceu com Ulisses depois da guerra de Tróia quando, após haver deixado a paradisíaca ilha de Ogígia, chega à terra dos feácios, que não apenas hospitaleiramente o acolhem, mas também providenciam seu seguro retorno à casa, em Ítaca. O que a princípio pode parecer um mero detalhe, justificável do ponto de vista de licença poética, acaba trazendo consequências bastante complexas para a resolução do fluxo narrativo da história que, na versão de Nolan, gera graves problemas.
Esta infeliz escolha, contudo, se justifica por uma opção bastante notável de Nolan, que, no afã de “modernizar” a narrativa homérica, “naturaliza” o sobrenatural, retratando as entidades divinas, como as ninfas Calipso e Circe e a própria deusa Atena — tão central e presente no original homérico — de forma ambígua, descaracterizando-as e despotencializando-as. Assim, a poderosa ninfa, senhora da ilha de Ogígia, que na Odisseia original oferece a imortalidade e a juventude eterna a Ulisses, aparece como uma mulher solitária, náufraga como o próprio Ulisses, que, depois de mantê-lo dopado por sete anos, levada por algum tipo inexplicável de remorso, resolve “despertá-lo” e fazê-lo recobrar a memória. Em sua boa intenção de “humanizar” as personagens divinas, Nolan acaba por transformá-las em opacas caricaturas, personagens que parecem oriundas de algum universo mais próximo de Bruxas de Blair do que da mitologia grega. O mesmo se aplica à caracterização da linda, misteriosa e sedutora Circe, que na história original oferece um delicioso banquete que transforma os companheiros de Ulisses em porcos, mas que no filme aparece como uma espécie de camponesa depauperada, esfarrapada e suja, que oferece uma gororoba repugnante que desanimaria qualquer morto de fome.
E é neste ponto que tocamos no aspecto mais problemático da obra de Nolan. Seja por um compreensível critério mercadológico — afinal, trata-se de uma superprodução hollywoodiana que, para se pagar e gerar lucro, precisa falar a linguagem das massas e tornar-se um blockbuster —, seja por uma menos aceitável visão etnocêntrica, a Odisseia de Nolan acaba por projetar em suas personagens formas de ser e pensar que refletem muito mais os dramas da crise do modelo norte-americano de civilização do que as questões essenciais da existência humana que a obra eterna de Homero nos permite vislumbrar. Assim, por exemplo, vemos nas telas um Odisseu que mais recorda um veterano da guerra do Vietnã ou do Iraque, com seus traumas e dramas de consciência, do que aquele homem astuto, curioso e audaz, que, inspirado e guiado pelos deuses — especialmente por Atena, sua fiel protetora — muito viajou, conheceu e sofreu, em sua longa aventura de regresso à casa, tal como canta o aedo nos primeiros versos do primeiro canto da narrativa. Desta forma, o que encontramos no filme de Nolan não é um Ulisses humanizado — o que, aliás, já nos é dado de forma muito direta e pura na narrativa de Homero, onde ele é “aquele que muito errou e aprendeu” —, mas sim um Ulisses americanizado, muito mais cheio de testosterona do que de astúcia. E assim, talvez com a melhor das boas intenções, a maravilhosa obra de Homero acaba desvirtualizada nesta grandiosa versão em IMAX, esvaziada de graça, sutileza e principalmente beleza. Sim, principalmente beleza, pois a partir de uma visão absolutamente tosca do que seria a Grécia Arcaica, Nolan atropela e despreza — e aqui salta à vista a leitura superficial e pouco sensível do “esteta” da era do TikTok — aspectos tão explicitamente potentes na obra de Homero, como a beleza e a graça que emergem nas descrições de delicado acolhimento e hospitalidade que todos, bons e maus, recebem por onde quer que vão. Ou na caracterização das paisagens paradisíacas que tanto prazer e espanto despertam em homens e deuses — no filme de Nolan, a paradisíaca ilha de Calipso, que, na descrição original de Homero, fez com que até o mais agitado dos deuses, Hermes, se permitisse por lá parar um pouco e contemplar suas belezas, tornou-se uma versão apocalíptica e triste de uma praia do litoral sul paulista. Ou, ainda, os palácios, adornados de lindas tapeçarias e vasilhas preciosas, fossem caracterizados como castelos dos tempos das invasões bárbaras, verdadeiros pardieiros, habitados por gente suja e esfarrapada.
Com seu tom lúgubre e sombrio — aliás, o único alívio cômico (do qual, cabe assinalar, a obra original de Homero está cheio) que pude identificar no filme é não intencional, quando se ouve da boca do próprio Ulisses que a Era de Bronze está acabando! —, a Odisseia de Nolan é um verdadeiro documento histórico, não da Grécia Homérica, claro, mas do nosso próprio tempo: um tempo pródigo em realizações técnicas e ilusionistas, porém extremamente pobre em graça, sutileza e beleza, em sentido, sobretudo, de justa medida. Neste aspecto, a obra de Nolan fica infinitamente atrás do modelo original. Entretanto, mesmo sendo um grande fiasco artístico, a Odisseia IMAX tem o inegável mérito de nos reaproximar, nós, pobres mendigos culturais, de uma obra rica, profunda e inesgotável. Algo mais do que necessário nos tempos que correm. Se Nolan ficou aquém da inspiração de Homero, que seu filme possa, pelo menos, inspirar muitos a irem em busca da fonte cujas musas guardam e nos aguardam, ansiosamente.





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