É notável o crescimento da preocupação com a dieta nas últimas décadas. Percepções sobre o efeito da alimentação em nossa saúde, qualidade de vida e longevidade deixaram de ser assunto exclusivo de médicos e cientistas para fazer parte das conversas e diretrizes de um vasto segmento da população, em diferentes classes sociais. Mais recentemente, com o hiperfoco no shape, a temática dietética, com todo o seu complexo léxico científico, ganhou presença impressionante no imaginário coletivo, determinando a forma como pensamos, falamos e nos comportamos. Observa-se, atualmente, como termos que até pouco tempo atrás eram de uso exclusivo de especialistas da ciência dietética passaram a ser utilizados cotidianamente com extrema familiaridade e naturalidade, sobretudo pelas gerações mais recentes, difundindo-se com grande profusão nas redes sociais.

Não se pode negar o valor do despertar dessa “consciência dietética” para a melhoria da saúde da população em geral. Porém, seguindo uma lógica recorrente dos fenômenos culturais, a tendência a ultrapassar o critério da justa medida nesses processos de “conversão” não deixa de causar inevitáveis exageros e estragos. Nesse âmbito, a justificável preocupação logo tende a assumir a forma de obsessão, e, assim, o natural e saudável ato de se alimentar — que, para além de uma necessidade de sobrevivência, é também um rito e forma simbólica e humanizadora desenvolvida ricamente ao longo dos séculos por todos os povos e culturas — vem se apresentando quase como um ato mecânico e técnico, cada vez mais desumanizado. Nos tempos atuais, parece que comemos da mesma forma como abastecemos nossos veículos ou carregamos nossos celulares e outros gadgets. Não comemos mais comidas boas e nutritivas, carregadas de histórias e significados, mas substâncias como proteínas, fibras e carboidratos, na dose certa para manter nossas “máquinas” em alta performance e ainda preservar o shape nos rigorosos critérios instagramáveis.

Mas não é apenas no âmbito do corpo e da sociabilidade que se verifica o estrago causado por essa nova tendência. Esta obsessão dietética para fins performáticos vem contribuindo para um fenômeno correlato certamente menos perceptível para a maioria das pessoas: a subnutrição da alma.

É interessante observar como andamos tão preocupados com aquilo que ingerimos pela boca e, paradoxalmente, tão descuidados com aquilo com que alimentamos nossa mente, nossa inteligência e nosso coração. Somos tão intolerantes em relação ao açúcar, ao glúten, à gordura saturada, etc., e, por outro lado, tão complacentes e até irresponsáveis em relação ao que vemos, lemos, assistimos, ouvimos, pensamos e falamos. Por que será que hoje nos parece tão fácil e natural diferenciar os alimentos saudáveis daqueles insalubres e deletérios (junk food) e, em contrapartida, parece quase impossível nos darmos conta de que estamos consumindo veneno para nossas almas?

A internet e, em especial, as redes sociais configuram-se hoje como verdadeiros fast foods da alma. Por meio delas, consumimos uma quantidade absurda de lixo, de porcarias que envenenam nosso coração, embotam nosso espírito e comprometem nossa inteligência. Tal dieta estúpida vem gerando uma curiosa e paradoxal doença que combina obesidade psicológica — por excesso de estímulos deletérios — com subnutrição intelectual — causada pela perda considerável dos elementos essenciais que nos possibilitam pensar por conta própria.

Necessitamos urgentemente de um reequilíbrio dietético. Necessitamos de um novo despertar que, por um lado, liberte-nos da obsessão dietética performática, focada apenas na manutenção do corpo-máquina-shape instagramável, e, por outro, abra nossos olhos para os efeitos deletérios dessa nefasta dietética da alma, baseada na saturação de estímulos e na hiperadição de estupidez. Necessitamos de uma dieta verdadeiramente balanceada, em que possamos, tal como descreve de forma inspirada e belíssima Karen Blixen em seu poético conto “A Festa de Babette”, alimentar o corpo com coisas reais e saborosas (pão, ervas, vinho), na justa medida, e alimentar também a nossa alma com coisas igualmente reais e nutritivas, como a boa convivência, a saudável conversa e a troca de experiências e ideias com nossos semelhantes. Precisamos desesperadamente recuperar o sentido da verdadeira refeição — aquela que de fato refaz as forças do corpo ao mesmo tempo em que alimenta nossa alma. Precisamos resgatar aquela experiência descrita na Odisseia de Homero, em que as pessoas, havendo “saciado o desejo de comida e bebida”, compartilhavam histórias e conversavam noite adentro, naquelas “noites longas, maravilhosamente longas”.

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