No artigo deste mês, tomo a liberdade de compartilhar um pequeno trecho de um livro ainda não escrito de autoria de um historiador ainda não nascido, mas que se chamará, provavelmente, Martin Spritz. O título do livro será “A Era da Estupidez”, e sua publicação está prevista, mais ou menos, para 2099. Seguindo a inspiração da célebre quadrilogia de Eric Hobsbawm, que se inicia com a “Era das Revoluções” e se encerra com a “Era dos Extremos”, a “Era da Estupidez” narra e analisa os acontecimentos ocorridos e a ocorrer entre o 11 de setembro de 2001 e o fim da Terceira Grande Guerra, ainda sem data definida. O trecho abaixo reproduzido é um extrato do capítulo intitulado “O Grande Eclipse Virtual”.
A partir de meados da década de 2020, os efeitos deletérios da adicção às redes sociais, associados ao avanço vertiginoso da IA em todas as dimensões da sociedade, do mundo do trabalho e da vida íntima das pessoas, passaram a ser denunciados com crescente veemência. Ainda que sistematicamente contestadas e deliberadamente ocultadas pelo techpower, as pesquisas científicas sobre o fenômeno não deixavam margem a dúvidas: a virtual life — como passou a ser chamada essa dimensão da existência humana — estava emburrecendo e estupidificando a humanidade num ritmo avassalador.
Frente a isso, em 2029, um pequeno grupo de cientistas, intelectuais, artistas e educadores, procedentes de diversos países, criou uma organização chamada HAS (Humanity Against Stupidification), que, num primeiro momento, visava, por meio da divulgação científica, da reflexão humanística e da produção artística, sensibilizar a sociedade e advertir lideranças empresariais e governamentais, a fim de nortear iniciativas e promover políticas públicas que limitassem o uso e contivessem os efeitos desastrosos das redes sociais e da IA. Ainda que nos primeiros meses de atuação a HAS tenha conseguido gerar alguma comoção, logo — seja por articulação efetiva do techpower, seja pelo simples desinteresse e apatia da sociedade, gravemente contaminada pela estupidez viral — as iniciativas da organização perderam todo o poder de penetração e articulação. Diante disso, alguns líderes mais combativos, em sua grande maioria desiludidos dos quadros mais altos do techpower, assumiram o comando da HAS e acabaram por transformá-la em uma organização terrorista, atuando exclusivamente no ciberespaço.
Formados nas melhores escolas e munidos de grande experiência e altas habilidades, adquiridas em seus longos estágios nas empresas mais importantes de tecnologia da informação, os partigianets — como se autodenominavam, fazendo referência aos heróis da resistência italiana na Segunda Guerra Mundial — começaram a perpetrar atentados cibernéticos cada vez mais ousados, hackeando sistemas considerados inexpugnáveis pelos líderes e gestores das empresas e nações mais poderosas. Entretanto, talvez nem eles mesmos (os partigianets) pudessem imaginar o que seriam capazes de fazer.
No dia 23 de outubro de 2036, os ciberterroristas conseguiram nada mais, nada menos do que “derrubar” a internet, interrompendo todas as conexões entre computadores e dispositivos, afetando inclusive a rede de telefonia e outros sistemas de comunicação em todo o globo terrestre. De imediato, instaurou-se o caos. Um “apagão” generalizado fez o mundo parar. Não apenas celulares e computadores ficaram inoperantes, mas também serviços básicos de fornecimento de energia, controle de transportes e infraestrutura foram severamente afetados em todos os cantos, com efeitos desastrosos principalmente nas grandes cidades, causando prejuízos incalculáveis. Um verdadeiro clima apocalíptico se instaurou, e, por mais que os setores de inteligência dos países mais avançados, apoiados pelos profissionais mais capacitados do setor privado, tenham se mobilizado numa inédita “cruzada” techpower, inexplicável e desconcertadamente nada foi possível fazer para restabelecer a normalidade cibernética. Os partigianets haviam vencido e tinham as rédeas do destino da humanidade nas mãos.
Dois dias depois, em 25 de outubro, iniciaram-se as negociações entre os líderes da HAS e uma comissão internacional especial do techpower. As reivindicações dos terroristas eram muito simples: concordavam em restaurar a internet, porém apenas de forma parcial, o suficiente para a manutenção dos serviços essenciais, a fim de garantir a livre circulação de pessoas e mercadorias, assim como o funcionamento de hospitais, aeroportos, trens, etc. O principal objetivo era o de manter inoperante toda e qualquer forma de comunicação, especialmente as redes sociais.
Acuados e absolutamente impotentes, os dirigentes globais não tiveram outra alternativa senão ceder. Assim, em alguns dias, o mundo voltou a respirar: os meios de transporte voltaram a operar, bem como o fornecimento básico de energia e os equipamentos de infraestrutura. A vida, aos poucos, começou a se normalizar. Entretanto, este “novo normal” muito rapidamente se revelou bastante peculiar. Com o “eclipse” das redes sociais e dos aplicativos de comunicação, as pessoas se depararam com situações inusitadas e, para a maioria delas, absolutamente inéditas.
Impossibilitadas de se comunicar a distância, contando, quando muito, com algum aparelho de telefonia fixa — que praticamente havia desaparecido nas primeiras décadas do século —, as pessoas se viram obrigadas a se deslocar fisicamente até o local onde se encontravam aqueles com quem queriam ou precisavam falar, correndo o risco de — usando uma expressão resgatada dos séculos passados — “dar com o nariz na porta”. De qualquer forma, essa nova condição suscitou a ressurreição de um costume há muito abandonado pela humanidade, especialmente nas grandes cidades: a visita.
Muito rapidamente, as pessoas aprenderam e incorporaram o hábito de “dar uma passadinha” para ver como estavam seus parentes e amigos, primeiro nos fins de semana e, aos poucos, também no final da tarde, após o expediente. Com o tempo, começaram a se organizar jantares coletivos nas residências de uns e de outros e, com a inexistência dos aplicativos de entrega, muitos passaram a comprar alimentos no trajeto de volta para casa; em número crescente, alguns começaram a preparar suas refeições no lar, tomando gosto pela coisa.
Com a interrupção dos e-mails, chats e sistemas de mensagens instantâneas, o ritmo e a intensidade de trabalho nas empresas e repartições públicas diminuíram consideravelmente, permitindo que a hora do cafezinho se alargasse e, assim, os colegas se conhecessem melhor. A amizade, forma de relacionamento humano que então já havia praticamente desaparecido, voltou a ganhar força, resgatando milhares de pessoas do fantasma da solidão e da depressão. Privados do apoio emocional dado pela IA, muitos se viram obrigados a buscar em seus colegas de trabalho, parentes e conhecidos a interlocução e passaram a se abrir, expondo suas dores, medos, sonhos e alegrias.
Práticas há muito esquecidas, como a de escrever cartas e bilhetes, reapareceram com toda a força, e não foram poucos os cursos que começaram a ser oferecidos para ensinar a dominar essas formas de comunicação: de caligrafia, de composição, etc. Aliás, o tempo — cada vez disponível, diga-se de passagem — que antes era empregado no uso hipnótico e compulsivo das redes sociais começou a ser utilizado em tarefas que, a princípio, se buscavam como forma de compensar e apaziguar as crises de abstinência e combater a angústia e a ansiedade, mas que muito rapidamente passaram a ser fonte de prazer e satisfação. As pessoas começaram a ler livros, a escrever diários e, como consequência, a se encontrar para trocar impressões, experiências e aprendizados.
Ainda que mais tarde se tenha tentado negar, durante os meses em que durou o “Grande Eclipse Virtual” parece que as pessoas foram consideravelmente mais felizes. Foram muitos os cronistas e testemunhos pessoais registrados em fontes manuscritas que relataram uma estranha e benfazeja sensação de desaceleração, de leveza e de paz de espírito que, por certo, impactou positivamente a saúde mental de grande parte da humanidade.
Quem não estava nada feliz e aliviado era o techpower e os grandes do setor financeiro, que amargaram tremendas perdas, pois toda essa nova situação havia determinado uma queda vertiginosa das vendas e dos lucros em todos os setores da economia, uma vez que o consumismo compulsivo diminuiu assustadoramente. Diante disso, temendo um colapso irreversível, num esforço desesperado e inédito que mobilizou todos os recursos de inteligência humana e artificial, quando o “eclipse” completava nove meses, conseguiu-se identificar o “ninho virtual” dos partigianets. Desarticulado o sistema de controle, não foi difícil chegar ao paradeiro físico dos líderes. Presos e julgados por um tribunal econômico-político internacional especialmente criado para esse fim, os quatro principais líderes, conhecidos pelos codinomes de Leon, Tauros, Eaguel e Angel, foram devidamente “neutralizados” de forma “definitiva”.
Com o fim do “Grande Eclipse Virtual”, o “Sol da Liberdade e da Comunicação” voltou a brilhar e, muito rapidamente, as pessoas puderam resgatar seus smartphones e demais gadgets abandonados. E não foram poucos os governos que, como forma de indenização, financiaram e até presentearam populações inteiras com aparelhos novos, muito mais seguros e inteligentes, o que asseguraria uma recuperação econômica mais rápida e consistente. Em pouco tempo, muitos daqueles novos hábitos adquiridos durante o período de exceção foram sendo esquecidos. Porém, nos anos que se seguiram, não foram poucos os que continuaram lembrando com nostalgia aqueles dias do “Grande Eclipse Virtual”.





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