Nestes últimos dias, do nada, uma cena vem me perseguindo insistentemente. Ela procede d’O Senhor dos Anéis. Fui conferir no livro — no terceiro volume, “O Retorno do Rei” — e percebi que, na minha imaginação, ela é uma mistura do texto original de Tolkien e da versão cinematográfica de Peter Jackson. Na cena que me assalta, o mago Gandalf e o hobbit Pippin estão numa das ameias da fortaleza que protege a cidade de Minas Tirith. Olham o horizonte na direção do Levante e avistam uma nuvem escura que cresce e fica a cada minuto mais densa, encobrindo a tênue luz do sol que quer anunciar a chegada de um novo dia. A nuvem escura é o sinal palpável das forças poderosíssimas de Sauron, o Necromante, que crescem e ameaçam de forma fatal a frágil Terra-média, lar das criaturas livres. Nesse momento, a escuridão do céu invade os corações e as almas de todos os que aguardam o terrível golpe que muito em breve se desencadeará sobre a outrora bela e orgulhosa capital do reino de Gondor. A frase esculpida nos frontões de entrada do Inferno de Dante caberia perfeitamente como legenda do quadro que apresentamos: “Deixai aqui toda esperança vós que entrais”… Gandalf, Pippin e os demais habitantes de Minas Tirith, entretanto, não estão prestes a entrar em nenhum portal; ao contrário, estão na iminência de ser engolidos por essa irresistível tempestade infernal que se aproxima.

Apesar de todo o medo, terror e melancolia, não tanto por pensarem que seu fim está próximo, mas por considerarem o fim de toda beleza e liberdade na terra tão diversa que conhecem, sentem uma espécie de conforto. Um conforto que ainda está longe de ser um laivo de esperança, mas que provém da certeza de que estão onde tinham de estar, fazendo o que têm de fazer. Esta convicção é, como diz Gandalf, o suficiente para apaziguar a alma e infundir coragem num coração que se apequena e se apavora frente ao fim iminente. E então, como se o universo, aparentemente alheio aos dramas existenciais das pessoas, estivesse ouvindo-os, bem neste momento da conversa uma leve brisa, soprando do sul, traz um frescor inusitado e um aroma evocativo: “O vento já está virando. Há uma brisa vinda do sul; há nela um cheiro de mar, embora possa ser muito fraco”.

Poucos minutos depois, a onda irresistível irrompe com toda força derrubando inexpugnáveis portões e fazendo todos fugirem. “Todos exceto um. (…) Gandalf não se mexeu. E naquele exato momento, em algum pátio distante da Cidade, um galo cantou. Cantou num tom estridente e cristalino, sem se importar com feitiçaria ou guerra, apenas saudando a manhã que no céu, acima das sombras da morte, chegava com a aurora”. Este foi o início, duro, cruel, difícil, da inacreditável vitória das criaturas livres da Terra Média sobre as hordas ignóbeis e obscuras do Senhor do Anel.

Não acredito que seja à toa o fato de esta cena haver, “do nada”, irrompido em meu coração e quase me forçado a escrever isso que neste momento estou escrevendo, sem ter uma ideia muito clara do porquê o estou fazendo. O que me chama a atenção é a força simbólica do poder tirânico, violento, escravizador e desumanizador de Sauron — que maldisfarçadamente fala de uma nova era de “ordem e progresso” —, contrastando com a fragilidade, vulnerabilidade e diversidade dos seres da Terra-média, que não apresentam projeto algum senão o desejo de continuar existindo como sempre existiram. Essa cena me evoca o quão frágil e instável é a inteligência, a sensibilidade, a empatia, a delicadeza e a cordialidade diante da força bruta, do ódio, da ignorância, da violência, do desrespeito e da uniformidade. Por outro lado, não deixa de ser emocionante e comovedor constatar nesta que evoca muitas e muitas outras cenas, ficcionais e reais, literárias e históricas, uma verdade inegável: a de que, por mais frágil e vulnerável que seja, a beleza tem um poder oculto capaz de resistir a qualquer força ameaçadora e destruidora. Como é bom ver que, na hora H, o vento começa a mudar e a soprar trazendo novos perfumes, e o galo, “sem se importar com feitiçaria ou guerra”, apenas saúda uma nova manhã “que no céu, acima das sombras da morte chega com a aurora”.

De fato, estamos cercados de nuvens plúmbeas, cada vez mais densas e ameaçadoras — nuvens carregadas de uma mescla sortílega de ignorância, desinformação, ódio, violência e culto idolátrico das novas tecnologias e da IA. Elas se aproximam e já podemos vislumbrar seus efeitos devastadores desde as ameias das ruinosas fortalezas civilizacionais. Em breve elas forçarão e derrubarão nossos portões. Entretanto, vocês não conseguem já sentir uma leve e discreta brisa — uma brisa com cheiro de inteligência, de empatia, de gentileza e cordialidade — que sopra ainda muito fraca, mas de forma perceptível?

O vento já está virando. Quando a tempestade chegar, derrubando os portões, é preciso ficar. É preciso fazer como Gandalf: não se mexer. Certamente o galo irá cantar.

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